Nota de Falecimento
Publicado: 28/09/2026 - 10:49
Última modificação: 28/09/2026 - 10:49

Hoje, no pôr do sol de um domingo de primavera, Daniela Luiza se foi. Há horas tento encontrar palavras que possam dar conta de quem ela é, mas, antes mesmo de sua partida, o mundo já tinha silenciado, e aos poucos a escrita foi perdendo sentido.
Durante toda a história da Filosofia, muitos escreveram sobre a amizade, mas nenhum deles teve a dádiva de conhecer Daniela.
No curso de Filosofia, ela desabrochou para si mesma. Sempre política, sempre delicada, sempre forte. Estudou o conceito de “duplo” e essa ideia a fascinava. Mas afirmo categoricamente que é impossível existir um duplo dela. Ela é única, singular, esplêndida como os raios de sol da manhã. Poderia escrever mais sobre sua passagem pelo curso de Filosofia, mas sua própria passagem não se restringiu a um diploma, mas sim aos inúmeros afetos que semeou e colheu.
Por 18 anos, ela segurou não só a minha mão, mas a mão de todos que pôde; enxugou lágrimas, vibrou de alegria. Durante 18 anos, nós duas planejamos as nossas vidas e realizamos sonhos juntas.
Daniela sempre salvou vidas e sempre o fez com um sorriso sincero no rosto. Sua força monstruosa vinha de sua calma, doçura e prudência, que faziam com que o melhor lugar do mundo fosse ao lado dela.
Dani sempre fazia as flores desabrocharem com facilidade; sempre ensinava com facilidade. Escolheu a militância como profissão, ou o contrário; não importa. Dedicou sua vida a ajudar mulheres a terem seus filhos de forma digna, respeitosa e autônoma. Foi assim que os filhos dela nasceram, e foi assim que ela se foi.
Conhecia todos os filmes: sabia o nome, o diretor, a data. Gostava de MPB e dançava como quem ia voar e tocar o céu; suas mãos balançavam como se fossem pétalas de rosa soltas ao vento.
Talvez Guimarães Rosa tenha conhecido uma Daniela na vida e, por isso, escreveu que amigo é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que se tira prazer de estar próximo. Só isto; quase; e todos os sacrifícios. Ou amigo é que a gente seja, mas sem precisar de saber o porquê é que é.
Perto da Dani, a vida era mais fácil.
Esse mundo sempre foi pequeno para ela, que sentia todas as dores, e agora ela se fundiu com o universo e virou uma galáxia…
Agora ficamos cobertos de memórias e reflexões.
Por que todos dizem que a morte é fria?
Todos dizem que ela é gelada,
que devemos temer o seu abraço,
que devemos temer pelo nosso dia.
Mas para mim, a morte é quente;
para mim, a morte é fogo;
suas lágrimas queimam nosso rosto,
incineram o coração.
Essas lágrimas servem para lubrificar
nossos olhos para uma nova perspectiva:
uma visão de um mundo sem uma pessoa nele,
uma pessoa que já atravessou a ponte.
Que nós lembremos de seus poemas
de seus textos
e possamos repeti-los ao vento.
Como a tempestade, a dor nunca passa;
ela apenas diminui.
Jéssica, Gigliola e Augusto.
